A ‘operação tapa-buraco’ no futebol feminino

Sabe aquela tarefa que você é obrigado a fazer, mas não está nem um pouco disposto e entrega de qualquer jeito só para se livrar dela? É mais ou menos assim que está funcionando a obrigatoriedade dos clubes masculinos da primeira divisão a investirem no futebol feminino.

Quem acreditou que a regra imposta por CBF e Conmebol ajudaria a elevar o patamar da modalidade logo sofreu um choque de realidade.

A exigência poderia ser uma excelente oportunidade para que novos clubes desenvolvessem trabalhos próprios, que incentivassem novas pessoas a seguirem a modalidade. Mas, na prática, a obrigatoriedade se transformou em um simples tapa-buraco.

Via de regra, quem não tinha time feminino simplesmente fez parceria com um já existente. Apenas protocolo.

Assim, o Atlético Paranaense jogará em Foz do Iguaçu, o Palmeiras em Vinhedo, entre outros exemplos. Dá para contar nos dedos os clubes que, desde já, assumiram o real compromisso em construir uma identidade. E poderia ser ainda pior: clubes como o Iranduba, do Amazonas, receberam sondagens de grandes clubes para fazer parcerias. A banalização seria ainda mais explícita. Imagine um grande time do Sul ou Sudeste “mandando” jogos em Manaus?

Despedida do Sport

Para piorar, nesta semana, o futebol feminino brasileiro sofreu uma grande baixa. O Sport, que tinha um dos trabalhos mais consistentes da modalidade, desfez o seu departamento feminino. Como o time masculino jogará a Série B neste ano, não há a obrigatoriedade imposta pelo Licenciamento de Clubes da CBF. A regra deve entrar em vigor para times da segunda divisão a partir de 2020.

O Sport justificou o encerramento das atividades em virtude das dívidas do clube. Mas o futebol feminino tinha um custo ínfimo para o clube pernambucano, de apenas R$ 40 mil por mês somando jogadoras e comissão técnica. No time masculino, só o atacante Juninho, envolvido em repetidos casos de agressão a mulheres, recebe R$ 10 mil mensais.

É um descaso legitimado pelo próprio torcedor brasileiro. “Time feminino não dá lucro”, dizem eles. Pois então que se cobre algum tipo de retorno. Por que um clube como o Iranduba tem retorno e um time de camisa se julga incapaz? É uma questão de competência, não de “caridade”.

Os mais otimistas dirão que este é apenas o começo, que logo os clubes criarão uma consciência maior em torno do futebol feminino. Já eu penso que, enquanto os mesmos cabeças estiverem no comando dos clubes, a situação será apenas empurrada com a barriga.

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