Daniil Medvedev: o sucessor não-convencional

Enquanto Federer, Djokovic e Nadal continuam monopolizando os principais títulos do circuito, a comunidade do tênis insiste em prever quem herdará o trono do Big 3. Muitos nomes já foram colocados na roda: Thiem, Zverev, Tsitsipas…até Auger-Aliassime, de apenas 19 anos, começa a entrar na conversa. No entanto, um nome até então negligenciado começa a ganhar força: Daniil Medvedev.

O russo vive a melhor fase da carreira. Medvedev conseguiu a proeza de fazer três finais pesadíssimas de forma consecutiva. Em Washington e Montreal, perdeu na decisão. Já em Cincinnati, o esforço foi recompensado. No seu 16º jogo em 20 dias, o incansável Medvedev venceu David Goffin e conquistou o primeiro Masters 1000 da carreira.

Sem fazer barulho, Medvedev entrou pela primeira vez no top-5 do mundo. Mas há uma pergunta que não quer calar. Por mais que seus resultados estejam obviamente mais consistentes agora, o russo está longe de ser um novato no circuito. Então por que só agora se fala tanto nele?

Há várias formas de se explicar isso, mas nós vamos escolher a mais simples e direta: Medvedev não é o tipo de sucessor que se sonha para o Big 3.

Em primeiro lugar, Daniil Medvedev é uma figura não-convencional. O russo é alto (1,98), mas não baseia seu jogo no saque. Seu backhand é plano, bem distante da plasticidade (e do topspin) que caracteriza as estrelas da NextGen. Para completar, é um cara que, por assim dizer, não desperta muito carisma.

Em resumo, é a antítese de alguém que se espera ser o próximo rosto do tênis. Talvez por isso, Medvedev batalhou mais do que ninguém para chegar no status que ocupa. Se antes o russo era consensualmente excluído, agora ele dá uma resposta do tipo “ok, acho que vocês vão ter que falar de mim agora”.

As virtudes de Medvedev

Medvedev nutre duas características que o destacam do restante da nova geração: regularidade e variação.

Ninguém venceu mais partidas do que Medvedev em 2019: são 44 até aqui. Mas a consistência não está necessariamente só nos resultados. Medvedev é um tenista que naturalmente comete poucos erros não forçados. Seus golpes são tão robotizados que podem ser entediantes, mas quase sempre eficientes, que é o que mais importa.

A capacidade de adaptação também é outra marca do russo. E não só pelo plano tático em si, mas também por intuição, pela capacidade de sentir o jogo. Com ousadia para mudar e força mental para suportar os momentos difíceis, Medvedev dificilmente se dá por vencido.

Obviamente, Medvedev também nutre outras virtudes. É sólido do fundo da quadra, tem um jogo de pernas admirável para alguém de sua altura e, como bem disse Djokovic, é dono de um segundo saque “que parece o primeiro”.

Há exatamente um ano, Medvedev ocupava o 56º lugar do ranking da ATP. Se voltarmos cinco anos, o russo havia acabado de entrar no top-1000 (!!) do mundo. Uma ascensão meteórica a base de muito trabalho, não apenas para melhorar seus golpes, como também para cuidar do próprio corpo, algo decisivo para aguentar a maratona de 16 jogos em 20 dias.

Protagonismo

Com 31 vitórias no piso duro em 2019, Daniil Medvedev se coloca como outsider na briga pelo US Open, o último Grand Slam do ano. Obviamente, é preciso ter cuidado com qualquer análise. No fim das contas, ainda estamos falando de alguém que jamais chegou sequer às quartas de final de um GS.

De toda forma, a percepção geral é a de que, depois dessa sequência arrasadora, a comunidade do tênis já “aceita” o não-convencional Medvedev como parte da elite do tênis. Parece estranho para você? Não precisa deixar de ser. Medvedev é estranho, se reconhece assim e se beneficia exatamente disso para construir uma identidade própria e romper ainda mais barreiras no circuito.

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